terça-feira, 26 de março de 2013




CHORA, POETA

É assim que você alivia a alma.
Chora, poeta, chora!
Que a dor vai embora.

sonia delsin 



PELOS VÃOS

Sonhos vãos.
Escapam por entre
meus dedos.
Eles escapam pelos
vãos.
Você dizia que tinha raízes...


Você se dizia preso ao solo amado.
Preso ao seu mundo tão organizado.
Pena! Que pena!
Não se permitia sonhar, voar.

Seu ser iria gostar.
De navegar...
Flutuar...
Experimentar...
Extravasar.

As asas ficavam tão apertadas.
Ao seu corpo branco tão coladas!

Ó, meu querido!
Os seres não se podem prender.
Devem se desprender...

Admito que um dia precisamos morrer,
mas enquanto aqui estamos, necessitamos
sentir o prazer... de viver.

 sonia delsin 



RODAS DO CORAÇÃO

ia o tempo
a favor das águas
iam minhas mágoas
era roda viva
viva a roda da vida
tudo leva
tudo lava

sonia delsin 



QUEM RESISTE?

quem resiste a um riso infantil?
a uma criancinha?
gracinha

sonia delsin 



LEMBRO BEM

lembro bem a hora do adeus
seus olhos
os meus
o vazio que ficou
parecia que o mundo tinha acabado
mas precisamos enterrar o passado


sonia delsin 



DESAFETO

Palavras duras.
Ó! E ditas tão simplesmente...
São chicotes no ar.
Ferem.
Machucam.
Chegam a matar.
Sim, matar.
Vão matando aos poucos.
Devagarzinho.
Vão matando os sonhos.
As ilusões todas.
As esperanças.
Vão enterrando expectativas.
Vão criando um novo mundo.
Um submundo.
De desafeto.
De desesperança.
Um mundo de coisas mortas que lamentamos.
Mumificados os sonhos.
Uma pirâmide colossal.
Não se torna pó.
São eternizados e causam dó.
Palavras...
Quanto poder de construção!
E quanto poder de destruição!
Palavras duras...
Não caminham com o vento e se perdem.
Penetram o coração e se instalam.
Vão fazendo um ninho no peito.
Cabe a nós removê-lo.
Só a nós...

sonia delsin 



UMA PISCINA DE GEL

Alguém a se afogar eu desejei ajudar.
Gritei, insisti.
É só bater os braços, as pernas. Tente.
Não desista.
Uma cabeça que aparece à flor d’água.
Quando desaparece meu peito dói. Eu grito.
Meu grito parece alcançar o infinito.
─ Tente, tente. Continue. Insista.

De repente não era mais outra pessoa que se afogava.
Era eu mesma em seu lugar.
Era eu a afogar.
As sensações idênticas.
Eu tentando dar uma braçada e nada.
A água azul tão pesada.
Eu sei que posso. É só esticar o braço. Só dar uma braçada.
─ Tenho que vencer. Tenho que conseguir. Vou insistir.
De nada adianta. Não consigo. A força da água é tanta.
Tento... tento. Afundo.

Volto à tona. E a água me sugando, me afundando...
Acordo suando.
A aflição me dominando.
Não me alivia nem o saber que só estive sonhando.

sonia delsin